Constante de Marinho (KM): O Que É e Como Usar no Dimensionamento de Enfermagem
Se o dimensionamento de enfermagem fosse uma receita, a Constante de Marinho seria o fermento: um número aparentemente simples que transforma os ingredientes (horas de enfermagem, leitos, ocupação) no resultado final — o número de profissionais necessários. Sem ela, a conta simplesmente não fecha.
A KM é o fator multiplicador que converte o Total de Horas de Enfermagem (THE) em Quadro de Pessoal (QP). Ela leva em conta três variáveis fundamentais: os dias de funcionamento da unidade, o Índice de Segurança Técnica (IST) e a carga horária semanal dos profissionais. Alterar qualquer uma dessas variáveis muda a KM — e, consequentemente, o número final de profissionais.
Neste artigo, vamos explicar a origem da KM, dissecar sua fórmula, apresentar uma tabela prática com os valores mais usados e mostrar exemplos de aplicação em diferentes cenários: unidades de internação 24 horas, ambulatórios e serviços que funcionam apenas em dias úteis.
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Experimentar grátisO Que É a Constante de Marinho
A Constante de Marinho recebe esse nome em homenagem à Profª Arlete de Moura Marinho, uma das pioneiras da administração em enfermagem no Brasil. Em seu trabalho sobre cálculo de pessoal de enfermagem, publicado na obra Administração em Enfermagem coordenada por Paulina Kurcgant (EPU, 1991), a professora Marinho sistematizou a fórmula que até hoje é a base do dimensionamento preconizado pelo COFEN.
Em termos práticos, a KM é um fator multiplicador. Quando você multiplica o Total de Horas de Enfermagem (THE) pela KM, obtém o número total de profissionais necessários no quadro:
QP = THE × KM
A beleza da KM está na sua capacidade de encapsular, em um único número, toda a complexidade da relação entre dias de funcionamento, ausências e jornada de trabalho. Uma vez calculada a KM para uma determinada configuração, ela pode ser reutilizada para qualquer cálculo com os mesmos parâmetros.
A Fórmula da Constante de Marinho
A fórmula é direta:
KM = DS × (1 + IST) / CHS
Onde cada variável representa:
DS — Dias da Semana de funcionamento
É o número de dias por semana em que a unidade funciona e precisa de cobertura de enfermagem. Os valores mais comuns são:
- 7 dias: Unidades de internação, UTIs, pronto-socorros, centros obstétricos — qualquer setor que funcione 24h/7 dias.
- 6 dias: Alguns ambulatórios e serviços que funcionam de segunda a sábado.
- 5 dias: Ambulatórios, centros de saúde, CAPS e serviços que funcionam apenas em dias úteis (segunda a sexta).
IST — Índice de Segurança Técnica
O percentual que cobre todas as ausências previstas e não previstas da equipe. Na fórmula, entra em formato decimal (15% = 0,15). O IST mínimo segundo o COFEN é de 15%, mas o ideal é usar o IST real da unidade, que frequentemente é superior. Temos um artigo completo sobre como calcular o IST real.
CHS — Carga Horária Semanal
A jornada semanal contratual do profissional de enfermagem. Os valores mais comuns no Brasil são:
- 36 horas: O mais comum em hospitais, especialmente para regime 12×36.
- 30 horas: Comum em algumas instituições públicas e para enfermeiros em regime de 6h/dia.
- 40 horas: Encontrado em algumas instituições privadas e na atenção primária.
- 44 horas: Limite legal da CLT, pouco comum em enfermagem mas existente.
- 20 horas: Contratos de meio período, encontrados em alguns serviços.
Exemplo de cálculo
Para uma unidade de internação (7 dias/semana), com profissionais em regime de 36h semanais e IST de 15%:
KM = 7 × (1 + 0,15) / 36 = 7 × 1,15 / 36 = 8,05 / 36 = 0,2236
Esse é o valor de KM mais utilizado no Brasil, pois reflete o cenário mais comum: funcionamento contínuo, 36 horas semanais e IST mínimo.
Tabela de KM para Combinações Comuns
Para facilitar o trabalho do dia a dia, apresentamos abaixo os valores de KM já calculados para as combinações mais frequentes de DS, CHS e IST:
| DS | CHS | IST | KM | Cenário típico |
|---|---|---|---|---|
| 7 | 36h | 15% | 0,2236 | Internação, UTI, PS (mais comum) |
| 7 | 36h | 20% | 0,2333 | Internação com IST realista |
| 7 | 36h | 25% | 0,2431 | Unidades com alto absenteísmo |
| 7 | 30h | 15% | 0,2683 | Hospitais públicos com 30h |
| 7 | 30h | 20% | 0,2800 | Hospitais públicos com IST realista |
| 7 | 40h | 15% | 0,2013 | Hospitais privados com 40h |
| 5 | 40h | 15% | 0,1438 | Ambulatório/UBS (seg-sex, 40h) |
| 5 | 36h | 15% | 0,1597 | Ambulatório/CAPS (seg-sex, 36h) |
| 5 | 30h | 15% | 0,1917 | Ambulatório público (seg-sex, 30h) |
| 6 | 36h | 15% | 0,1917 | Serviço seg-sáb (36h) |
Dica prática: Se a sua combinação não está na tabela, basta aplicar a fórmula KM = DS × (1 + IST) / CHS. Não existe mistério — são apenas três variáveis.
Exemplos de Aplicação
Vamos ver como a KM se aplica em diferentes cenários reais de serviços de saúde.
Exemplo 1: Unidade de internação 24h/7 dias
Uma clínica médica com 30 leitos, taxa de ocupação de 85%, e a seguinte distribuição de pacientes por classificação (usando a Escala de Fugulin):
- Cuidados mínimos (4h): 8 pacientes
- Cuidados intermediários (6h): 10 pacientes
- Alta dependência (10h): 5 pacientes
- Semi-intensivo (10h): 2,5 pacientes
THE = (8×4) + (10×6) + (5×10) + (2,5×10) = 32 + 60 + 50 + 25 = 167 horas
Com KM de 0,2236 (7d/36h/15%): QP = 167 × 0,2236 = 37,3 ≈ 38 profissionais
Para mais detalhes sobre como calcular o THE e distribuir o quadro entre enfermeiros e técnicos, consulte nosso guia completo de dimensionamento.
Exemplo 2: Ambulatório (5 dias/semana)
Um ambulatório de especialidades que funciona de segunda a sexta, atendendo em média 80 pacientes/dia. Os profissionais trabalham em regime de 40h semanais (8h/dia). Estimativa de 0,5h de enfermagem por consulta.
THE = 80 × 0,5 = 40 horas/dia
Com KM de 0,1438 (5d/40h/15%): QP = 40 × 0,1438 = 5,75 ≈ 6 profissionais
Exemplo 3: CAPS III (24h/7 dias, CHS 30h)
Um CAPS III que funciona 24 horas, 7 dias por semana, com profissionais em regime de 30h semanais. Capacidade para 20 usuários em acolhimento noturno, com estimativa de 6h de enfermagem por usuário.
THE = 20 × 6 = 120 horas/dia
Com KM de 0,2683 (7d/30h/15%): QP = 120 × 0,2683 = 32,2 ≈ 33 profissionais
Perceba como a KM mais alta (0,2683 vs. 0,2236) reflete a necessidade de mais profissionais para cobrir a mesma demanda quando a jornada individual é menor. Quando cada profissional trabalha menos horas por semana, são necessários mais profissionais no quadro.
Impacto de Cada Variável na KM
Entender como cada variável influencia a KM ajuda a antecipar o resultado e a argumentar com a administração quando necessário.
IST aumenta → KM aumenta
Quanto maior o IST, maior a KM, e consequentemente maior o quadro de pessoal. Isso faz sentido: se as ausências são mais frequentes, mais profissionais são necessários para cobri-las. A relação é diretamente proporcional.
Exemplo: Aumentar o IST de 15% para 25% (com DS=7, CHS=36h) eleva a KM de 0,2236 para 0,2431 — um aumento de 8,7% no quadro.
CHS aumenta → KM diminui
Quanto maior a carga horária semanal, menor a KM. Isso também é intuitivo: se cada profissional trabalha mais horas por semana, menos profissionais são necessários no total. A relação é inversamente proporcional.
Exemplo: Mudar de 30h para 36h semanais (com DS=7, IST=15%) reduz a KM de 0,2683 para 0,2236 — uma redução de 16,6% no quadro necessário.
DS aumenta → KM aumenta
Quanto mais dias a unidade funciona por semana, maior a KM. Um serviço que funciona 7 dias precisa de mais profissionais do que um que funciona 5 dias, mesmo com a mesma CHS e IST.
Exemplo: Mudar de 5 para 7 dias (com CHS=36h, IST=15%) eleva a KM de 0,1597 para 0,2236 — um aumento de 40% no quadro. Essa é a variável com maior impacto relativo.
Resumo do impacto
| Variável | Quando aumenta | KM... | Quadro... |
|---|---|---|---|
| DS (Dias da semana) | 5 → 7 | Aumenta | Aumenta |
| IST (Segurança Técnica) | 15% → 25% | Aumenta | Aumenta |
| CHS (Carga horária) | 30h → 40h | Diminui | Diminui |
Essa análise é particularmente útil quando você precisa justificar o quadro para a direção do hospital. Se a administração questionar o número de profissionais, você pode demonstrar matematicamente o impacto de cada variável e por que o dimensionamento não pode ser reduzido arbitrariamente sem comprometer a segurança.
Para ver como a KM se integra ao cálculo completo — incluindo classificação de pacientes, THE e distribuição por categoria — veja nosso artigo sobre dimensionamento de enfermagem na UTI, que traz um exemplo passo a passo completo.
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Criar conta gratuitaReferências
- MARINHO, A.M. Cálculo de pessoal de enfermagem. In: KURCGANT, P. (coord.). Administração em Enfermagem. São Paulo: EPU, 1991.
- COFEN. Resolução nº 543/2017 — Parâmetros para dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem nos serviços/locais em que são realizadas atividades de enfermagem.
- COFEN. Resolução nº 743/2024 — Atualização dos parâmetros de dimensionamento de enfermagem.
- GAIDZINSKI, R.R. Dimensionamento de pessoal de enfermagem em instituições hospitalares. Tese de Doutorado. Escola de Enfermagem da USP, 1998.
- FUGULIN, F.M.T.; GAIDZINSKI, R.R.; KURCGANT, P. Sistema de classificação de pacientes: identificação do perfil assistencial dos pacientes das unidades de internação do HU-USP. Rev. Latino-Am. Enfermagem, 2005.
- BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) — Art. 58 e seguintes, sobre jornada de trabalho.