Escala de Fugulin: Guia Completo para Classificação de Pacientes (SCP)
O Sistema de Classificação de Pacientes (SCP) é a pedra fundamental do dimensionamento de pessoal de enfermagem. Sem saber quão complexos são os cuidados que cada paciente demanda, é impossível calcular com precisão quantos profissionais são necessários em uma unidade. E no Brasil, o instrumento mais utilizado para essa classificação é a Escala de Fugulin.
Se você é enfermeiro e precisa classificar pacientes para fins de dimensionamento — ou se está estudando para concursos e precisa dominar esse tema — este guia é para você. Vamos explicar cada um dos 12 indicadores, como pontuar, como interpretar o score final e como usar a classificação no cálculo do dimensionamento de enfermagem.
A classificação de pacientes não é apenas uma exigência normativa. É uma ferramenta de gestão que permite ao enfermeiro demonstrar, com dados objetivos, a carga de trabalho da equipe e argumentar tecnicamente pela adequação do quadro de pessoal.
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Criar conta grátisO que é a Escala de Fugulin
A Escala de Fugulin foi desenvolvida pela enfermeira e pesquisadora Fernanda Maria Togeiro Fugulin, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), no final da década de 1990. O instrumento foi criado, validado e aperfeiçoado ao longo de vários estudos acadêmicos e tornou-se a referência nacional para classificação de pacientes em unidades de internação.
A escala avalia 12 áreas de cuidado (indicadores), cada uma pontuada de 1 a 4 pontos. A soma dos 12 indicadores gera um score total que varia de 12 a 48 pontos. Com base nesse score, o paciente é classificado em uma das cinco categorias de cuidado: mínimo, intermediário, alta dependência, semi-intensivo ou intensivo.
A grande vantagem da Escala de Fugulin é que ela é relativamente simples de aplicar, não exige equipamentos especiais e pode ser usada em qualquer unidade de internação. A classificação é feita pelo enfermeiro, à beira do leito, com base na avaliação clínica do paciente naquele dia.
É importante destacar que a classificação deve ser feita diariamente, pois o estado do paciente pode mudar de um dia para outro. Um paciente que ontem era "intermediário" pode hoje, após uma intercorrência, passar a "semi-intensivo". É essa dinâmica que a classificação diária captura.
Os 12 indicadores da Escala de Fugulin
Cada indicador é avaliado isoladamente, e o enfermeiro atribui a pontuação que melhor corresponde à condição do paciente naquele momento. Vamos detalhar cada um.
1. Estado Mental
Avalia o nível de consciência e orientação do paciente.
- 1 ponto — Orientado: paciente lúcido, orientado no tempo, espaço e pessoa. Comunica-se adequadamente.
- 2 pontos — Períodos de desorientação: apresenta episódios de confusão mental, mas tem períodos de lucidez.
- 3 pontos — Desorientação permanente: está constantemente desorientado, confuso ou agitado. Pode necessitar de contenção.
- 4 pontos — Inconsciente: não responde a estímulos verbais. Paciente em coma ou sob sedação profunda.
2. Oxigenação
Avalia a necessidade de suporte para manter a oxigenação adequada.
- 1 ponto — Não necessita: respira em ar ambiente sem dificuldade, SpO2 adequada.
- 2 pontos — Uso contínuo de O2: necessita de cateter nasal, máscara de O2 ou outro dispositivo de baixo fluxo continuamente.
- 3 pontos — CPAP/BiPAP ou macronebulização: necessita de ventilação não invasiva ou nebulização contínua.
- 4 pontos — Ventilação mecânica invasiva: paciente intubado ou traqueostomizado em ventilação mecânica.
3. Sinais Vitais
Avalia a frequência necessária de monitorização dos sinais vitais.
- 1 ponto — Rotina (1x por turno): sinais vitais estáveis, aferidos conforme rotina da unidade.
- 2 pontos — A cada 4 horas: necessita de monitorização mais frequente por instabilidade leve.
- 3 pontos — A cada 2 horas: instabilidade moderada, requer vigilância mais próxima.
- 4 pontos — Monitorização contínua ou de horário: instabilidade hemodinâmica, necessita de monitorização cardíaca contínua ou aferição horária.
4. Motilidade
Avalia a capacidade do paciente de movimentar-se no leito.
- 1 ponto — Movimenta-se sem auxílio: movimenta todos os segmentos corporais de forma independente.
- 2 pontos — Limitação de um ou mais membros: apresenta alguma limitação de movimento, mas consegue mudar de posição com esforço.
- 3 pontos — Necessita de auxílio para movimentar-se: não consegue mudar de posição sozinho, necessita da equipe para mudança de decúbito.
- 4 pontos — Imóvel: totalmente dependente da equipe para qualquer movimentação. Pode estar em tração, gesso ou ter restrição total de movimentos.
5. Deambulação
Avalia a capacidade do paciente de locomover-se.
- 1 ponto — Deambula sem auxílio: caminha de forma independente dentro e fora do quarto.
- 2 pontos — Deambula com auxílio: necessita de apoio de bengala, andador, ou auxílio de outra pessoa para caminhar.
- 3 pontos — Locomoção por cadeira de rodas: não consegue deambular, utiliza cadeira de rodas para deslocamento.
- 4 pontos — Restrito ao leito: não pode sair do leito por condição clínica, restrição médica ou impossibilidade física.
6. Alimentação
Avalia o grau de dependência para alimentação.
- 1 ponto — Autossuficiente: alimenta-se sozinho, por via oral, sem necessidade de auxílio.
- 2 pontos — Necessita de auxílio: precisa de ajuda para posicionar-se, abrir embalagens, cortar alimentos ou orientação durante a refeição.
- 3 pontos — Via oral assistida ou por sonda: necessita de administração da dieta pela equipe (via oral assistida) ou recebe dieta por sonda nasogástrica, nasoenteral ou gastrostomia.
- 4 pontos — Nutrição parenteral total (NPT): recebe nutrição exclusivamente por via endovenosa.
7. Cuidado Corporal
Avalia o grau de dependência para higiene pessoal.
- 1 ponto — Autossuficiente: realiza o banho e a higiene pessoal de forma independente.
- 2 pontos — Necessita de auxílio: precisa de supervisão ou ajuda parcial para o banho (ex.: lavar as costas, mobilizar-se no chuveiro).
- 3 pontos — Banho no leito com auxílio: necessita de banho no leito realizado pela equipe, mas colabora de alguma forma.
- 4 pontos — Banho no leito, totalmente dependente: necessita de banho no leito completo, sem nenhuma colaboração do paciente.
8. Eliminação
Avalia o grau de dependência para as eliminações fisiológicas.
- 1 ponto — Autossuficiente: utiliza o banheiro de forma independente, continente.
- 2 pontos — Necessita de auxílio: precisa de ajuda para ir ao banheiro, usa comadre ou papagaio com auxílio.
- 3 pontos — Uso de dispositivos: utiliza sonda vesical de demora, colostomia, uropen ou fraldas, com necessidade de cuidados da equipe.
- 4 pontos — Eliminação em fralda no leito ou uso de dispositivos múltiplos: incontinente, totalmente dependente da equipe para os cuidados com eliminação.
9. Terapêutica
Avalia a complexidade do esquema terapêutico medicamentoso.
- 1 ponto — Medicação via oral ou sem medicação: recebe apenas medicamentos por via oral em horários simples, ou não recebe medicamentos.
- 2 pontos — Medicação intramuscular (IM) ou endovenosa (EV) intermitente: recebe medicamentos por via IM ou EV em horários programados.
- 3 pontos — Medicação EV contínua ou múltiplas vias: recebe hidratação venosa contínua, uso de bomba de infusão, múltiplos medicamentos EV ou esquemas complexos.
- 4 pontos — Uso de drogas vasoativas ou protocolos especiais: recebe drogas vasoativas (noradrenalina, dobutamina), quimioterapia, hemotransfusão ou outros tratamentos de alta complexidade.
10. Integridade Cutâneo-Mucosa
Avalia a condição da pele e mucosas do paciente.
- 1 ponto — Íntegra: pele e mucosas sem alterações.
- 2 pontos — Alteração de cor (hiperemia, equimose): presença de alterações visíveis na pele, mas sem solução de continuidade.
- 3 pontos — Presença de solução de continuidade: presença de feridas, úlceras por pressão, lesões abertas que necessitam de cuidados.
- 4 pontos — Destruição tecidual: feridas extensas, úlceras profundas, lesões necróticas, queimaduras ou destruição de tecidos que exigem cuidados complexos.
11. Curativo
Avalia a complexidade e frequência dos curativos necessários.
- 1 ponto — Sem curativo ou curativo simples: não necessita de curativo, ou curativo pequeno de baixa complexidade (ex.: cobertura de acesso venoso).
- 2 pontos — Curativo em ferida limpa, 1x ao dia: curativo de complexidade moderada, realizado uma vez ao dia.
- 3 pontos — Curativo em ferida aberta com drenagem ou múltiplos curativos: necessita de curativos em feridas com drenagem, múltiplos locais ou necessidade de irrigação.
- 4 pontos — Curativo de grande porte ou especializado: curativos complexos, extensos, com uso de técnicas especiais (terapia por pressão negativa, curativos a vácuo) ou realizados múltiplas vezes ao dia.
12. Tempo de Permanência
Avalia o tempo de internação do paciente na unidade, o que influencia a complexidade dos cuidados e o planejamento de alta.
- 1 ponto — Até 3 dias: internação recente, geralmente pacientes em fase aguda com perspectiva de alta breve.
- 2 pontos — De 4 a 7 dias: internação de médio prazo.
- 3 pontos — De 8 a 15 dias: internação prolongada, pode indicar complicações ou condições crônicas agudizadas.
- 4 pontos — Mais de 15 dias: internação longa, frequentemente associada a maior complexidade assistencial, risco de infecções hospitalares e necessidade de planejamento de alta mais elaborado.
Como calcular o score e classificar o paciente
Após avaliar os 12 indicadores, some todas as pontuações. O score total determinará a categoria de cuidado do paciente conforme a tabela abaixo:
| Score total | Categoria de cuidado | Horas de enfermagem / paciente / dia |
|---|---|---|
| 12 a 17 pontos | Cuidado Mínimo | 4 horas |
| 18 a 22 pontos | Cuidado Intermediário | 6 horas |
| 23 a 28 pontos | Alta Dependência | 10 horas |
| 29 a 34 pontos | Cuidado Semi-intensivo | 10 horas |
| 35 a 48 pontos | Cuidado Intensivo | 18 horas |
Observe que as categorias "alta dependência" e "semi-intensivo" possuem a mesma carga horária de enfermagem (10 horas), mas diferem na proporção de enfermeiros exigida: alta dependência exige no mínimo 36% de enfermeiros, enquanto semi-intensivo exige no mínimo 42%. Por isso, mesmo que as horas sejam iguais, a classificação correta é fundamental.
Para pacientes de unidades de terapia intensiva (UTI), todos são automaticamente classificados como cuidado intensivo, independentemente do score na Escala de Fugulin. Isso porque a natureza da unidade exige o nível máximo de vigilância e cuidados.
Como usar a classificação no dimensionamento
A classificação de pacientes é o primeiro passo do dimensionamento. Depois de classificar todos os pacientes da unidade durante pelo menos 90 dias consecutivos, você terá os dados necessários para calcular o quadro de pessoal. O processo funciona assim:
Passo 1: Coletar dados por 90 dias
Classifique todos os pacientes da unidade diariamente, usando a Escala de Fugulin. Registre a quantidade de pacientes em cada categoria de cuidado a cada dia. Ao final dos 90 dias, calcule a média diária de pacientes em cada categoria.
Passo 2: Calcular o Total de Horas de Enfermagem (THE)
Multiplique a média de pacientes em cada categoria pelas horas de enfermagem correspondentes e some tudo. Essa é a demanda total de horas de enfermagem que sua unidade precisa por dia. Veja o passo a passo completo em nosso guia de cálculo do dimensionamento.
Passo 3: Converter em profissionais
Use a Constante de Marinho e o Índice de Segurança Técnica (IST) para converter as horas de enfermagem em número de profissionais. Distribua entre enfermeiros e técnicos/auxiliares conforme as proporções exigidas para cada categoria de cuidado.
Dicas para aplicação correta da Escala de Fugulin
Com base na experiência de quem aplica a escala no dia a dia, reunimos algumas recomendações práticas para garantir uma classificação fidedigna:
Treine toda a equipe de enfermeiros
Todos os enfermeiros que farão a classificação devem ser treinados com o mesmo critério. A maior fonte de erro na classificação é a subjetividade — dois enfermeiros avaliando o mesmo paciente podem chegar a scores diferentes se não estiverem alinhados. Realize treinamentos periódicos e discuta casos que gerarem dúvidas.
Classifique sempre no mesmo horário
Padronize o horário da classificação. Muitos serviços fazem a classificação no período da manhã, após o banho e a avaliação de enfermagem. Isso garante consistência nos dados ao longo dos 90 dias.
Avalie o paciente como ele está HOJE
Não classifique com base no diagnóstico ou no que o paciente "provavelmente" vai precisar. Avalie a condição atual. Um paciente pós-operatório imediato pode ser intensivo hoje e intermediário amanhã. É justamente essa variação que a classificação diária deve capturar.
Na dúvida entre dois scores, escolha o maior
Se você está em dúvida se o paciente pontua 2 ou 3 em determinado indicador, opte pelo score mais alto. Subdimensionar o cuidado é mais perigoso do que superdimensionar. Essa é uma prática segura e amplamente recomendada na literatura.
Não pule nenhum indicador
Todos os 12 indicadores devem ser avaliados para cada paciente. Mesmo que um indicador pareça irrelevante para determinado paciente (ex.: curativo para um paciente sem feridas), ele ainda deve ser pontuado (1 ponto, neste caso).
Documente o registro
Mantenha um registro organizado das classificações diárias. Isso pode ser feito em planilhas, sistemas informatizados ou ferramentas especializadas. O registro é fundamental para o cálculo do dimensionamento e para eventual fiscalização do COREN.
Atenção especial com pacientes psiquiátricos e pediátricos
A Escala de Fugulin foi desenvolvida e validada para pacientes adultos em unidades de internação clínica e cirúrgica. Para pacientes psiquiátricos e pediátricos, existem adaptações e instrumentos específicos. Verifique se o instrumento é adequado para a população da sua unidade.
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Testar agora gratuitamenteReferências
- FUGULIN, F.M.T.; GAIDZINSKI, R.R.; KURCGANT, P. Sistema de classificação de pacientes: identificação do perfil assistencial dos pacientes das unidades de internação do HU-USP. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 13, n. 1, p. 72-78, 2005.
- FUGULIN, F.M.T. et al. Implantação do sistema de classificação de pacientes na unidade de clínica médica do Hospital Universitário da USP. Revista Medicina HU-USP, v. 4, n. 1/2, p. 63-68, 1994.
- GAIDZINSKI, R.R. Dimensionamento de pessoal de enfermagem em instituições hospitalares. Tese de livre-docência, Escola de Enfermagem da USP, 1998.
- Parecer Normativo COFEN nº 1/2024 — Parâmetros técnicos para dimensionamento de pessoal de enfermagem.
- Resolução COFEN 564/2017 — Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem.
- Lei nº 7.498/1986 — Regulamentação do exercício da enfermagem.
A Escala de Fugulin é mais do que uma ferramenta de classificação — ela é a linguagem comum que permite ao enfermeiro traduzir a complexidade do cuidado em dados objetivos. Dominá-la é essencial para qualquer profissional que trabalhe com gestão de enfermagem e dimensionamento de pessoal. A classificação bem feita é a base de um dimensionamento confiável, e um dimensionamento confiável é a base de uma assistência segura.