← Blog · 22/03/2026 · 15 min de leitura

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Como Calcular o Dimensionamento de Enfermagem: Guia Passo a Passo com Exemplos

O dimensionamento de pessoal de enfermagem é o processo técnico-científico que determina a quantidade e a qualificação dos profissionais de enfermagem necessários para atender, com segurança e qualidade, a demanda de cuidados de uma unidade assistencial. É, sem exagero, uma das competências mais importantes do enfermeiro que ocupa cargos de liderança.

Quem é obrigado a fazer? Todo serviço de saúde que possui equipe de enfermagem. O enfermeiro Responsável Técnico (RT) é o profissional legalmente incumbido de realizar e documentar o dimensionamento. A base legal está na Lei 7.498/1986, no Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem (Resolução COFEN 564/2017) e nos parâmetros técnicos estabelecidos pelo Parecer Normativo COFEN nº 1/2024 — que substituiu a antiga Resolução COFEN 543/2017, revogada pela Resolução 743/2024.

Neste guia, vamos percorrer cada etapa do cálculo, explicar todas as fórmulas e, ao final, fazer um exemplo numérico completo com 30 leitos para você acompanhar de ponta a ponta. Vamos lá.

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Conceitos fundamentais

Antes de colocar a mão na calculadora, você precisa dominar alguns conceitos. São eles que formam a base de todo o cálculo.

Sistema de Classificação de Pacientes (SCP)

O SCP é o método pelo qual classificamos cada paciente internado segundo o grau de complexidade do cuidado que ele demanda. No Brasil, o instrumento mais utilizado é a Escala de Fugulin, que avalia 12 indicadores de cuidado e classifica o paciente em cinco categorias: cuidado mínimo, intermediário, alta dependência, semi-intensivo e intensivo.

A classificação deve ser feita diariamente, por enfermeiro, para cada paciente internado. É a partir dessa classificação que sabemos quantas horas de enfermagem cada paciente necessita.

Horas de enfermagem por tipo de cuidado

Cada nível de complexidade do cuidado exige uma quantidade mínima de horas de assistência de enfermagem por paciente, a cada 24 horas:

Tipo de cuidado Horas de enfermagem / paciente / dia
Cuidado mínimo (CM)4 horas
Cuidado intermediário (CI)6 horas
Alta dependência (AD)10 horas
Cuidado semi-intensivo (CSI)10 horas
Cuidado intensivo (CIT)18 horas

Esses valores são os estabelecidos pelo Parecer Normativo COFEN nº 1/2024 e permanecem os mesmos que constavam na antiga Resolução 543/2017.

Proporção por categoria profissional

Nem toda a equipe precisa ser de enfermeiros. A norma define o percentual mínimo de enfermeiros em relação ao total de profissionais de enfermagem para cada tipo de cuidado:

Tipo de cuidado % mínimo de enfermeiros % máximo de técnicos/auxiliares
Cuidado mínimo33%67%
Cuidado intermediário33%67%
Alta dependência36%64%
Cuidado semi-intensivo42%58%
Cuidado intensivo52%48%

Índice de Segurança Técnica (IST)

O Índice de Segurança Técnica (IST) é o percentual que adicionamos ao quadro de pessoal para cobrir ausências previstas (férias, folgas semanais, feriados) e ausências não previstas (faltas, licenças, afastamentos). A antiga 543/2017 previa um IST mínimo de 15% (sendo pelo menos 8,33% para cobertura de férias). Na prática, o IST real de muitas instituições fica entre 20% e 40%, dependendo dos índices de absenteísmo.

Constante de Marinho (KM)

A Constante de Marinho (KM) é um fator que converte as horas de enfermagem necessárias em número de profissionais, levando em conta a jornada de trabalho semanal e os dias da semana. Ela é calculada pela fórmula:

KM = Dias da semana / Jornada semanal em horas = 7 / JSH

Exemplo: para uma jornada de 36 horas semanais, KM = 7 / 36 = 0,1944.

Fórmulas do dimensionamento

Agora que os conceitos estão claros, vamos às fórmulas. O dimensionamento segue uma sequência lógica de três grandes cálculos.

Total de Horas de Enfermagem (THE)

O THE representa a quantidade total de horas de enfermagem que a unidade precisa em 24 horas. Para calculá-lo, multiplicamos a média de pacientes em cada nível de cuidado pelas horas de enfermagem correspondentes:

THE = (PCM x 4) + (PCI x 6) + (PAD x 10) + (PCSI x 10) + (PCIT x 18)

Onde PCM, PCI, PAD, PCSI e PCIT representam o número médio diário de pacientes classificados em cada tipo de cuidado (cuidado mínimo, intermediário, alta dependência, semi-intensivo e intensivo, respectivamente).

Quadro de Pessoal (QP) usando a Constante de Marinho

Com o THE calculado, usamos a Constante de Marinho para chegar ao número de profissionais necessários:

QP = THE x KM

Esse resultado nos dá o quadro de pessoal sem considerar ausências. É o número de profissionais necessários se ninguém nunca faltasse, tirasse férias ou folga.

Quadro de Pessoal com IST

Finalmente, adicionamos o IST para cobrir todas as ausências previstas e imprevistas:

QP final = QP x (1 + IST)

Se o IST é de 15%, multiplicamos por 1,15. Se é de 30%, por 1,30. E assim por diante.

Exemplo prático completo: unidade com 30 leitos

Vamos fazer o dimensionamento completo de uma unidade de internação clínica com 30 leitos. Consideraremos uma jornada de trabalho de 36 horas semanais e um IST de 15%.

Passo 1: Classificar os pacientes

Após 90 dias de classificação diária utilizando a Escala de Fugulin, chegamos à seguinte distribuição média diária de pacientes:

Tipo de cuidado Média diária de pacientes
Cuidado mínimo (CM)8 pacientes
Cuidado intermediário (CI)12 pacientes
Alta dependência (AD)6 pacientes
Semi-intensivo (CSI)3 pacientes
Intensivo (CIT)1 paciente
Total30 pacientes

Passo 2: Calcular o Total de Horas de Enfermagem (THE)

Aplicando a fórmula:

THE = (8 x 4) + (12 x 6) + (6 x 10) + (3 x 10) + (1 x 18)

THE = 32 + 72 + 60 + 30 + 18

THE = 212 horas de enfermagem / dia

Passo 3: Calcular a Constante de Marinho (KM)

Para uma jornada de 36 horas semanais:

KM = 7 / 36 = 0,1944

Passo 4: Calcular o Quadro de Pessoal (QP)

QP = THE x KM

QP = 212 x 0,1944

QP = 41,21 profissionais (arredondamos para 42)

Passo 5: Aplicar o IST

Com IST de 15%:

QP final = 42 x 1,15

QP final = 48,3 profissionais (arredondamos para 49)

Passo 6: Distribuir por categoria profissional

Agora precisamos distribuir esses 49 profissionais entre enfermeiros e técnicos/auxiliares, respeitando os percentuais mínimos para cada tipo de cuidado. Neste caso, calculamos separadamente o QP para cada tipo de cuidado:

Tipo THE parcial QP parcial (x KM x IST) Enfermeiros (mín.) Técnicos (máx.)
CM32h7,16 = 833% = 367% = 5
CI72h16,11 = 1733% = 667% = 11
AD60h13,43 = 1436% = 664% = 8
CSI30h6,71 = 742% = 358% = 4
CIT18h4,03 = 552% = 348% = 2
Total212h51*2130

* O total pode variar levemente em relação ao QP geral (49) por conta dos arredondamentos em cada tipo de cuidado. Sempre arredonde para cima em cada categoria para garantir a segurança.

Resultado: para esta unidade de 30 leitos com essa distribuição de complexidade, são necessários no mínimo 21 enfermeiros e 30 técnicos/auxiliares de enfermagem, totalizando 51 profissionais no quadro.

Erros comuns no dimensionamento

Ao longo dos anos acompanhando enfermeiros que fazem o dimensionamento, estes são os erros mais frequentes:

1. Não classificar os pacientes diariamente

Alguns serviços fazem a classificação apenas uma vez por semana ou "estimam" a distribuição de pacientes. Isso compromete toda a base do cálculo. A classificação deve ser feita todos os dias, por enfermeiro, durante no mínimo 90 dias consecutivos.

2. Usar IST de 15% quando o absenteísmo é maior

O IST de 15% é o mínimo estabelecido pelo Parecer Normativo. Se a sua instituição tem um índice de absenteísmo de 25%, por exemplo, usar 15% vai resultar em um quadro subdimensionado. Calcule o IST real da sua unidade com base nos dados de RH.

3. Esquecer de arredondar para cima

No dimensionamento, frações de profissionais sempre são arredondadas para cima. Se o cálculo dá 7,2 enfermeiros, você precisa de 8. Não é possível ter 0,2 de um profissional.

4. Não considerar a jornada de trabalho correta

A Constante de Marinho muda conforme a jornada. Uma equipe com jornada de 30h semanais terá KM diferente de uma com 36h ou 40h. Verifique qual é a jornada real praticada na sua instituição.

5. Misturar dados de unidades diferentes

Cada unidade assistencial deve ter seu dimensionamento calculado separadamente. Não misture os dados da clínica médica com os da cirúrgica, por exemplo.

6. Não documentar a metodologia

O cálculo sem documentação adequada tem pouco valor técnico e jurídico. Registre tudo: o instrumento de classificação utilizado, o período de coleta, os parâmetros adotados, as fórmulas aplicadas e os resultados obtidos.

Período mínimo de coleta: por que 90 dias?

O Parecer Normativo COFEN nº 1/2024 recomenda que a classificação de pacientes seja realizada por um período mínimo de 90 dias consecutivos antes de se calcular o dimensionamento. Mas por quê?

A razão é estatística: 90 dias (aproximadamente 3 meses) capturam as variações naturais na ocupação e na complexidade dos pacientes. Uma unidade pode ter períodos de alta e baixa ocupação, pacientes mais ou menos complexos em diferentes épocas do ano, e 90 dias é o mínimo para obter uma média representativa.

Alguns pontos importantes sobre a coleta:

Se a sua unidade está começando a classificação agora, considere que nos primeiros dias a equipe pode demorar mais para se familiarizar com o instrumento. Invista em treinamento antes de iniciar a coleta oficial.

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Referências

O dimensionamento de pessoal de enfermagem pode parecer complexo à primeira vista, mas quando você entende a lógica por trás de cada fórmula, o processo se torna claro e replicável. O mais importante é começar pela base — a classificação correta dos pacientes — e seguir o passo a passo com rigor. Com os dados corretos e as fórmulas certas, o resultado é um quadro de pessoal que garante segurança para o paciente e condições dignas de trabalho para a equipe.

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