← Blog · 22/03/2026 · 12 min de leitura

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Dimensionamento de Enfermagem na Atenção Primária (APS/UBS)

Quando falamos em dimensionamento de enfermagem, a maioria dos materiais disponíveis foca em unidades de internação hospitalar — leitos, classificação de pacientes, Escala de Fugulin, horas de enfermagem por grau de dependência. Mas e a Atenção Primária à Saúde? Como dimensionar a equipe de enfermagem em uma UBS ou equipe de Estratégia Saúde da Família, onde não existem leitos de internação?

A resposta envolve uma metodologia completamente diferente. Na APS, o que determina a necessidade de pessoal não é o número de leitos, mas sim a carga de trabalho — o volume e a complexidade das atividades que a equipe precisa realizar para atender a população adscrita. E para isso, existe um método desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) chamado WISN — Workload Indicators of Staffing Need (Indicadores de Carga de Trabalho para Necessidade de Pessoal).

Neste artigo, vou explicar como funciona o dimensionamento na APS, apresentar o método WISN de forma acessível e trabalhar um exemplo prático para uma UBS com equipe de Estratégia Saúde da Família. Se você quer entender o método geral do dimensionamento hospitalar antes de entrar na APS, recomendo nosso guia Como Calcular o Dimensionamento de Enfermagem.

Dimensionamento para APS também tem método

O Dimensar adapta o cálculo para a realidade da Atenção Primária, considerando carga de trabalho e atividades específicas da UBS.

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Por que a APS é Diferente

O dimensionamento hospitalar clássico, regulamentado pela Resolução COFEN 543/2017 e atualizado pela Resolução COFEN 743/2024, parte de uma premissa simples: pacientes internados em leitos precisam de horas de cuidado de enfermagem. Quanto mais grave o paciente, mais horas ele demanda. A partir daí, calcula-se o total de horas necessárias e divide-se pela carga horária disponível de cada profissional.

Na APS, essa lógica não se aplica porque:

Por essas razões, o Parecer Normativo COFEN n.º 1/2024 reconhece que o dimensionamento na APS deve utilizar metodologia adaptada, sendo o WISN a referência recomendada internacionalmente.

O que é o Método WISN

O WISN (pronuncia-se "uísn") foi desenvolvido pela OMS na década de 1990 e vem sendo aprimorado desde então. É um método baseado em evidências que calcula a necessidade de profissionais de saúde a partir da carga de trabalho real de uma unidade.

A ideia central é bastante intuitiva:

  1. Quantificar o tempo disponível de cada profissional por ano (descontando férias, feriados, faltas, capacitações).
  2. Listar todas as atividades que a equipe realiza.
  3. Medir o tempo médio gasto em cada atividade.
  4. Multiplicar pelo volume de cada atividade realizada por ano.
  5. Somar todo o tempo necessário e dividir pelo tempo disponível de um profissional.

O resultado é o número de profissionais necessários para dar conta da carga de trabalho. Simples no conceito, mas que exige coleta de dados cuidadosa para funcionar bem.

O WISN tem uma vantagem importante sobre métodos baseados em proporção fixa (como "1 enfermeiro para cada 3.000 habitantes"): ele considera a realidade local. Uma UBS em área urbana com alta demanda de curativos de úlcera venosa vai precisar de mais pessoal do que uma UBS rural com o mesmo tamanho de população mas perfil epidemiológico diferente.

Componentes do WISN

O método se organiza em torno de alguns componentes-chave:

Variáveis do Cálculo na APS

Vamos detalhar cada variável que entra no cálculo:

Tempo de Trabalho Disponível (TTD)

O TTD representa quantas horas um profissional realmente trabalha por ano. Para calculá-lo:

TTD = (Dias no ano - Feriados - Férias - Faltas previstas - Capacitações) x Horas por dia

Exemplo para regime de 40 horas semanais:

Atividades Diretas (Componentes de Serviço)

São as atividades realizadas diretamente com ou para o paciente. Na APS, as principais atividades de enfermagem incluem:

AtividadeTempo médio (minutos)
Consulta de enfermagem (hipertensão/diabetes)25-30
Consulta de enfermagem (puericultura)20-25
Consulta de enfermagem (pré-natal)30-40
Acolhimento/triagem10-15
Vacinação5-10
Curativo simples15-20
Curativo complexo30-45
Coleta de preventivo (Papanicolaou)20-25
Visita domiciliar40-60 (incluindo deslocamento)
Atividade educativa em grupo60-90
Teste rápido (HIV, sífilis, hepatites)15-20
Administração de medicação10-15
Coleta de exames laboratoriais10-15

Esses tempos são estimativas baseadas na literatura e na prática. O ideal é que cada unidade meça seus próprios tempos médios, pois podem variar conforme a infraestrutura, o perfil da população e a organização do processo de trabalho.

Atividades Indiretas (Componentes de Suporte)

São atividades necessárias ao funcionamento da unidade, mas que não envolvem atendimento direto ao paciente:

No WISN, essas atividades são tratadas como fator de ajuste — tipicamente, consomem entre 15% e 25% do tempo de trabalho do enfermeiro na APS.

Cálculo Passo a Passo

Agora vamos montar o cálculo na prática. O fluxo é o seguinte:

Passo 1: Calcular o TTD

Já fizemos acima. Para nosso exemplo: TTD = 1.520 horas/ano = 91.200 minutos/ano.

Passo 2: Listar as Atividades e seus Volumes Anuais

Para cada atividade que o enfermeiro realiza, levante o volume anual. Use dados do e-SUS, prontuário eletrônico ou registros de produção. Exemplo:

Passo 3: Calcular o Tempo Total Necessário

Multiplique cada volume pelo tempo médio e some tudo:

AtividadeVolume/anoTempo médio (min)Total (min)
Consultas de enfermagem2.4002867.200
Acolhimento3.6001243.200
Vacinação1.20089.600
Curativos9602524.000
Preventivos4802210.560
Visitas domiciliares4805024.000
Grupos educativos96757.200
Testes rápidos6001810.800
Total atividades diretas196.560

Passo 4: Ajustar para Atividades Indiretas

Aplicamos o fator de ajuste para atividades indiretas. Se estimamos que consomem 20% do tempo:

Tempo total ajustado = 196.560 / (1 - 0,20) = 196.560 / 0,80 = 245.700 minutos/ano

Passo 5: Calcular o Número de Enfermeiros

Q = Tempo total necessário / TTD = 245.700 / 91.200 = 2,69 → 3 enfermeiros

Arredondando para cima, a unidade precisa de 3 enfermeiros para dar conta da carga de trabalho.

Passo 6: Calcular Técnicos de Enfermagem

O mesmo método se aplica aos técnicos de enfermagem, listando suas atividades específicas (vacinação, curativos, aferição de sinais vitais, administração de medicação, etc.) e calculando de forma análoga.

Exemplo Prático: UBS com 1 Equipe ESF

Vamos a um exemplo completo e contextualizado.

Dados da Unidade

Produção Anual (dados do e-SUS)

Levantamos a produção do último ano:

Cálculo para Enfermeiros

AtividadeVolumeTempo (min)Total (min)
Consultas de enfermagem gerais2.1602860.480
Acolhimento3.0001236.000
Preventivos360227.920
Visitas domiciliares3845019.200
Grupos educativos48753.600
Pré-natal240358.400
Puericultura360227.920
Supervisão de vacinação240153.600
Testes rápidos480188.640
Total direto155.760

Ajuste para indiretas (20%): 155.760 / 0,80 = 194.700 min/ano

Necessidade: 194.700 / 91.200 = 2,13 → 3 enfermeiros

Resultado e Análise

O cálculo indica que a UBS precisa de 3 enfermeiros para atender adequadamente a carga de trabalho. Isso contrasta com o mínimo da ESF, que prevê apenas 1 enfermeiro por equipe. Na prática, muitas UBS já operam com enfermeiros adicionais justamente porque a demanda excede o que 1 profissional consegue absorver.

Essa é uma das contribuições mais importantes do WISN: ele evidencia, com dados, que os parâmetros mínimos de composição da ESF podem ser insuficientes dependendo do perfil da população e da produção da unidade. O dimensionamento baseado em carga de trabalho é uma ferramenta poderosa para negociar contratações com a gestão municipal.

Particularidades do NASF/eMulti

Com a mudança do NASF-AB para a equipe Multiprofissional (eMulti), introduzida pela Portaria GM/MS n.º 635/2023, o dimensionamento de enfermagem na APS ganhou mais uma camada de complexidade.

A eMulti atua em apoio às equipes de Saúde da Família e pode incluir profissionais de enfermagem em funções especializadas — por exemplo, enfermeiros com foco em saúde mental, feridas crônicas ou estomaterapia.

Para o dimensionamento, é importante considerar:

Na prática, muitos municípios ainda estão em transição do NASF para a eMulti, e os parâmetros de dimensionamento estão em construção. O Parecer Normativo COFEN n.º 1/2024 oferece diretrizes gerais, mas cada município precisa adaptar à sua realidade.

Para gerar a documentação formal do seu dimensionamento na APS, incluindo a metodologia WISN, o relatório de dimensionamento para o COREN precisa estar completo e acessível para fiscalização.

Dimensionamento na APS com base em evidências

O Dimensar aplica o método WISN adaptado para UBS e ESF. Insira seus dados de produção e tenha o cálculo completo com relatório.

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Referências

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