Dimensionamento de Enfermagem na Atenção Primária (APS/UBS)
Quando falamos em dimensionamento de enfermagem, a maioria dos materiais disponíveis foca em unidades de internação hospitalar — leitos, classificação de pacientes, Escala de Fugulin, horas de enfermagem por grau de dependência. Mas e a Atenção Primária à Saúde? Como dimensionar a equipe de enfermagem em uma UBS ou equipe de Estratégia Saúde da Família, onde não existem leitos de internação?
A resposta envolve uma metodologia completamente diferente. Na APS, o que determina a necessidade de pessoal não é o número de leitos, mas sim a carga de trabalho — o volume e a complexidade das atividades que a equipe precisa realizar para atender a população adscrita. E para isso, existe um método desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) chamado WISN — Workload Indicators of Staffing Need (Indicadores de Carga de Trabalho para Necessidade de Pessoal).
Neste artigo, vou explicar como funciona o dimensionamento na APS, apresentar o método WISN de forma acessível e trabalhar um exemplo prático para uma UBS com equipe de Estratégia Saúde da Família. Se você quer entender o método geral do dimensionamento hospitalar antes de entrar na APS, recomendo nosso guia Como Calcular o Dimensionamento de Enfermagem.
Dimensionamento para APS também tem método
O Dimensar adapta o cálculo para a realidade da Atenção Primária, considerando carga de trabalho e atividades específicas da UBS.
Experimentar gratuitamentePor que a APS é Diferente
O dimensionamento hospitalar clássico, regulamentado pela Resolução COFEN 543/2017 e atualizado pela Resolução COFEN 743/2024, parte de uma premissa simples: pacientes internados em leitos precisam de horas de cuidado de enfermagem. Quanto mais grave o paciente, mais horas ele demanda. A partir daí, calcula-se o total de horas necessárias e divide-se pela carga horária disponível de cada profissional.
Na APS, essa lógica não se aplica porque:
- Não há internação: os pacientes vêm à unidade para consultas, procedimentos e atividades coletivas, e retornam para casa.
- As atividades são extremamente variadas: a equipe de enfermagem na APS realiza consultas de enfermagem, visitas domiciliares, vacinação, curativos, coleta de preventivo, grupos educativos, acolhimento, vigilância epidemiológica, notificações, atividades administrativas e muito mais.
- A demanda é populacional: depende do tamanho e do perfil da população adscrita, não do número de leitos.
- O tempo por atividade varia enormemente: uma vacinação leva 5 minutos, uma consulta de enfermagem para hipertenso pode levar 30 minutos, uma visita domiciliar pode consumir 1 hora incluindo deslocamento.
- Há atividades fora da unidade: visitas domiciliares, ações em escolas, atividades comunitárias.
Por essas razões, o Parecer Normativo COFEN n.º 1/2024 reconhece que o dimensionamento na APS deve utilizar metodologia adaptada, sendo o WISN a referência recomendada internacionalmente.
O que é o Método WISN
O WISN (pronuncia-se "uísn") foi desenvolvido pela OMS na década de 1990 e vem sendo aprimorado desde então. É um método baseado em evidências que calcula a necessidade de profissionais de saúde a partir da carga de trabalho real de uma unidade.
A ideia central é bastante intuitiva:
- Quantificar o tempo disponível de cada profissional por ano (descontando férias, feriados, faltas, capacitações).
- Listar todas as atividades que a equipe realiza.
- Medir o tempo médio gasto em cada atividade.
- Multiplicar pelo volume de cada atividade realizada por ano.
- Somar todo o tempo necessário e dividir pelo tempo disponível de um profissional.
O resultado é o número de profissionais necessários para dar conta da carga de trabalho. Simples no conceito, mas que exige coleta de dados cuidadosa para funcionar bem.
O WISN tem uma vantagem importante sobre métodos baseados em proporção fixa (como "1 enfermeiro para cada 3.000 habitantes"): ele considera a realidade local. Uma UBS em área urbana com alta demanda de curativos de úlcera venosa vai precisar de mais pessoal do que uma UBS rural com o mesmo tamanho de população mas perfil epidemiológico diferente.
Componentes do WISN
O método se organiza em torno de alguns componentes-chave:
- Tempo de Trabalho Disponível (TTD): o total de horas que um profissional efetivamente trabalha por ano, descontadas todas as ausências.
- Componentes de Carga de Trabalho: as atividades são divididas em categorias — atividades de serviço (diretas ao paciente), atividades de suporte (indiretas) e atividades adicionais.
- Padrões de Atividade: o tempo médio necessário para realizar cada atividade e a frequência com que ocorre.
- Fator de Ajuste Individual (CAF): ajusta para atividades que não são diretamente relacionadas ao atendimento (reuniões de equipe, preenchimento de sistemas, supervisão).
Variáveis do Cálculo na APS
Vamos detalhar cada variável que entra no cálculo:
Tempo de Trabalho Disponível (TTD)
O TTD representa quantas horas um profissional realmente trabalha por ano. Para calculá-lo:
TTD = (Dias no ano - Feriados - Férias - Faltas previstas - Capacitações) x Horas por dia
Exemplo para regime de 40 horas semanais:
- Dias úteis no ano: aproximadamente 252
- Feriados: 12 dias
- Férias: 30 dias
- Faltas previstas (licenças, atestados): estimativa de 15 dias
- Capacitações e reuniões externas: 5 dias
- Dias efetivos: 252 - 12 - 30 - 15 - 5 = 190 dias
- Horas por dia: 8 horas
- TTD = 190 x 8 = 1.520 horas/ano
Atividades Diretas (Componentes de Serviço)
São as atividades realizadas diretamente com ou para o paciente. Na APS, as principais atividades de enfermagem incluem:
| Atividade | Tempo médio (minutos) |
|---|---|
| Consulta de enfermagem (hipertensão/diabetes) | 25-30 |
| Consulta de enfermagem (puericultura) | 20-25 |
| Consulta de enfermagem (pré-natal) | 30-40 |
| Acolhimento/triagem | 10-15 |
| Vacinação | 5-10 |
| Curativo simples | 15-20 |
| Curativo complexo | 30-45 |
| Coleta de preventivo (Papanicolaou) | 20-25 |
| Visita domiciliar | 40-60 (incluindo deslocamento) |
| Atividade educativa em grupo | 60-90 |
| Teste rápido (HIV, sífilis, hepatites) | 15-20 |
| Administração de medicação | 10-15 |
| Coleta de exames laboratoriais | 10-15 |
Esses tempos são estimativas baseadas na literatura e na prática. O ideal é que cada unidade meça seus próprios tempos médios, pois podem variar conforme a infraestrutura, o perfil da população e a organização do processo de trabalho.
Atividades Indiretas (Componentes de Suporte)
São atividades necessárias ao funcionamento da unidade, mas que não envolvem atendimento direto ao paciente:
- Preenchimento de prontuário eletrônico (e-SUS)
- Reuniões de equipe semanais
- Planejamento de ações
- Supervisão de técnicos e ACS
- Notificações epidemiológicas
- Elaboração de relatórios
- Gestão de insumos e materiais
- Educação permanente da equipe
No WISN, essas atividades são tratadas como fator de ajuste — tipicamente, consomem entre 15% e 25% do tempo de trabalho do enfermeiro na APS.
Cálculo Passo a Passo
Agora vamos montar o cálculo na prática. O fluxo é o seguinte:
Passo 1: Calcular o TTD
Já fizemos acima. Para nosso exemplo: TTD = 1.520 horas/ano = 91.200 minutos/ano.
Passo 2: Listar as Atividades e seus Volumes Anuais
Para cada atividade que o enfermeiro realiza, levante o volume anual. Use dados do e-SUS, prontuário eletrônico ou registros de produção. Exemplo:
- Consultas de enfermagem (diversas): 2.400/ano
- Acolhimento: 3.600/ano
- Vacinação (supervisão/administração): 1.200/ano
- Curativos: 960/ano
- Preventivos: 480/ano
- Visitas domiciliares: 480/ano
- Grupos educativos: 96/ano
- Testes rápidos: 600/ano
Passo 3: Calcular o Tempo Total Necessário
Multiplique cada volume pelo tempo médio e some tudo:
| Atividade | Volume/ano | Tempo médio (min) | Total (min) |
|---|---|---|---|
| Consultas de enfermagem | 2.400 | 28 | 67.200 |
| Acolhimento | 3.600 | 12 | 43.200 |
| Vacinação | 1.200 | 8 | 9.600 |
| Curativos | 960 | 25 | 24.000 |
| Preventivos | 480 | 22 | 10.560 |
| Visitas domiciliares | 480 | 50 | 24.000 |
| Grupos educativos | 96 | 75 | 7.200 |
| Testes rápidos | 600 | 18 | 10.800 |
| Total atividades diretas | 196.560 |
Passo 4: Ajustar para Atividades Indiretas
Aplicamos o fator de ajuste para atividades indiretas. Se estimamos que consomem 20% do tempo:
Tempo total ajustado = 196.560 / (1 - 0,20) = 196.560 / 0,80 = 245.700 minutos/ano
Passo 5: Calcular o Número de Enfermeiros
Q = Tempo total necessário / TTD = 245.700 / 91.200 = 2,69 → 3 enfermeiros
Arredondando para cima, a unidade precisa de 3 enfermeiros para dar conta da carga de trabalho.
Passo 6: Calcular Técnicos de Enfermagem
O mesmo método se aplica aos técnicos de enfermagem, listando suas atividades específicas (vacinação, curativos, aferição de sinais vitais, administração de medicação, etc.) e calculando de forma análoga.
Exemplo Prático: UBS com 1 Equipe ESF
Vamos a um exemplo completo e contextualizado.
Dados da Unidade
- Tipo: UBS com 1 equipe de Estratégia Saúde da Família
- População adscrita: 3.500 pessoas
- Funcionamento: segunda a sexta, 8h às 17h (8 horas úteis por dia)
- Equipe mínima da ESF: 1 médico, 1 enfermeiro, 1 técnico de enfermagem, 4-6 ACS, 1 dentista, 1 ASB
Produção Anual (dados do e-SUS)
Levantamos a produção do último ano:
- Consultas de enfermagem: 2.160 (média de 9/dia útil)
- Acolhimento/classificação de risco: 3.000 (média de 12,5/dia útil)
- Vacinação: 1.800
- Curativos (simples e complexos): 720
- Coleta de preventivo: 360
- Visitas domiciliares: 384 (8 por semana)
- Grupos educativos: 48 (1 por semana)
- Testes rápidos: 480
- Pré-natal (consultas de enfermagem): 240
- Puericultura: 360
Cálculo para Enfermeiros
| Atividade | Volume | Tempo (min) | Total (min) |
|---|---|---|---|
| Consultas de enfermagem gerais | 2.160 | 28 | 60.480 |
| Acolhimento | 3.000 | 12 | 36.000 |
| Preventivos | 360 | 22 | 7.920 |
| Visitas domiciliares | 384 | 50 | 19.200 |
| Grupos educativos | 48 | 75 | 3.600 |
| Pré-natal | 240 | 35 | 8.400 |
| Puericultura | 360 | 22 | 7.920 |
| Supervisão de vacinação | 240 | 15 | 3.600 |
| Testes rápidos | 480 | 18 | 8.640 |
| Total direto | 155.760 |
Ajuste para indiretas (20%): 155.760 / 0,80 = 194.700 min/ano
Necessidade: 194.700 / 91.200 = 2,13 → 3 enfermeiros
Resultado e Análise
O cálculo indica que a UBS precisa de 3 enfermeiros para atender adequadamente a carga de trabalho. Isso contrasta com o mínimo da ESF, que prevê apenas 1 enfermeiro por equipe. Na prática, muitas UBS já operam com enfermeiros adicionais justamente porque a demanda excede o que 1 profissional consegue absorver.
Essa é uma das contribuições mais importantes do WISN: ele evidencia, com dados, que os parâmetros mínimos de composição da ESF podem ser insuficientes dependendo do perfil da população e da produção da unidade. O dimensionamento baseado em carga de trabalho é uma ferramenta poderosa para negociar contratações com a gestão municipal.
Particularidades do NASF/eMulti
Com a mudança do NASF-AB para a equipe Multiprofissional (eMulti), introduzida pela Portaria GM/MS n.º 635/2023, o dimensionamento de enfermagem na APS ganhou mais uma camada de complexidade.
A eMulti atua em apoio às equipes de Saúde da Família e pode incluir profissionais de enfermagem em funções especializadas — por exemplo, enfermeiros com foco em saúde mental, feridas crônicas ou estomaterapia.
Para o dimensionamento, é importante considerar:
- Atividades compartilhadas: o enfermeiro da eMulti pode realizar atividades que complementam o trabalho do enfermeiro da ESF, como consultas especializadas ou matriciamento.
- Tempo de deslocamento entre unidades: a eMulti geralmente atende mais de uma UBS, o que consome tempo de deslocamento que deve ser contabilizado.
- Atividades de matriciamento: consultas conjuntas, discussões de caso e capacitações consomem tempo do enfermeiro da eMulti e devem entrar no cálculo.
- Cálculo separado: o dimensionamento da eMulti deve ser feito separadamente do da ESF, pois são equipes com composições e atribuições distintas.
Na prática, muitos municípios ainda estão em transição do NASF para a eMulti, e os parâmetros de dimensionamento estão em construção. O Parecer Normativo COFEN n.º 1/2024 oferece diretrizes gerais, mas cada município precisa adaptar à sua realidade.
Para gerar a documentação formal do seu dimensionamento na APS, incluindo a metodologia WISN, o relatório de dimensionamento para o COREN precisa estar completo e acessível para fiscalização.
Dimensionamento na APS com base em evidências
O Dimensar aplica o método WISN adaptado para UBS e ESF. Insira seus dados de produção e tenha o cálculo completo com relatório.
Calcular para minha UBSReferências
- OMS — Workload Indicators of Staffing Need (WISN): Manual do Usuário. Genebra: WHO, 2010.
- COFEN — Parecer Normativo n.º 1/2024: Orientações sobre dimensionamento de pessoal de enfermagem na Atenção Primária à Saúde.
- COFEN — Resolução n.º 543/2017: Parâmetros para dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem.
- BRASIL — Portaria n.º 2.436/2017: Política Nacional de Atenção Básica (PNAB).
- BRASIL — Portaria GM/MS n.º 635/2023: Define a equipe Multiprofissional na Atenção Primária à Saúde (eMulti).
- VITURI, D.W.; MATSUDA, L.M. Validação de conteúdo de indicadores de qualidade para avaliação do cuidado de enfermagem. Rev Esc Enferm USP, 2009.
- BONFIM, D. et al. Aplicação do WISN na Atenção Primária à Saúde: uma revisão integrativa. Rev Bras Enferm, 2016.